O transporte de bovinos até os confinamentos faz parte da rotina da pecuária de corte no Brasil. Em um país de dimensões continentais, com malha rodoviária de 1,7 milhão de quilômetros, segundo dados do governo federal, esse deslocamento impõe desafios importantes aos animais logo na chegada ao sistema intensivo de terminação.
“As consequências já aparecem na chegada ao confinamento. O estresse provocado pelo transporte, restrição hídrica e alimentar durante os trajetos, especialmente os mais longos, comprometem o peso de entrada, o ganho de peso diário e a eficiência alimentar dos animais confinados”, alerta Victor Fonseca, coordenador técnico de bovinos de corte da MCassab Nutrição Animal.
Tais impactos são observados em diferentes estudos conduzidos nos últimos anos. Em 2012, Rodrigo Marques verificou que animais submetidos ao transporte ou à restrição hídrica e alimentar por 24 horas antes da entrada no confinamento apresentaram menor ganho de peso diário e pior eficiência alimentar. Também foram registrados aumentos nos níveis de cortisol e haptoglobina, marcadores associados ao estresse e à inflamação. Resultados semelhantes foram relatados por Reinaldo Cooke, em 2013, ao analisar o desempenho e parâmetros fisiológicos de bovinos transportados por longas distâncias antes da entrada no confinamento.
Ao mesmo tempo, os confinamentos brasileiros trabalham com dietas cada vez mais energéticas, com maior inclusão de concentrado e amido em função do uso intensivo do milho. Embora as dietas modernas favoreçam a eficiência produtiva, alterações fisiológicas ocorrem simultaneamente e estão associadas ao desempenho de bovinos confinados. Em 2022, Osvaldo Sousa demonstrou que bovinos alimentados com dietas altamente concentradas apresentaram redução linear no ganho de peso diário e na eficiência alimentar ao longo do período de confinamento. Além do mais, conforme os dias em confinamento avançaram, os animais se tornaram mais resistentes à insulina. Neste estudo, também foi observado que a resistência à insulina foi positivamente associada com marcadores inflamatórios.
Em linha com esse contexto, diferentes tecnologias nutricionais vêm sendo utilizadas com o intuito de minimizar os reflexos negativos inerentes a intensificação e a modernização do sistema nutricional de bovinos de corte terminados em confinamento. “Entre as alternativas, as leveduras vivas e seus derivados tem-se mostrado eficazes em aumentar o desempenho e em amenizar a resposta inflamatória de bovinos suplementados”, destaca o coordenador técnico da MCassab.
Há três anos, o pesquisador Luca Cattaneo observou redução nos níveis de haptoglobina e aumento no consumo de matéria seca de vacas suplementadas durante o período de transição. Já Daniel Finck, em trabalho publicado em 2014, registrou maior consumo de matéria seca e menor resposta inflamatória em bovinos suplementados durante o período de recepção em confinamento.
Outra estratégia estudada é a suplementação com cromo. Victor Fonseca explica que “o micromineral potencializa a ação da insulina em tecidos sensíveis ao hormônio, apresentando potencial para melhorar o metabolismo energético dos animais submetidos a dietas com alta inclusão de concentrado”. Entre 2014 e 2019, trabalhos conduzidos por Tiago Leiva e Ashley Budde apontaram benefícios da suplementação de cromo em aliviar a resistência à insulina de vacas de leite, e aumento do ganho de peso e peso de carcaça de bovinos de corte.
“A nutrição exerce papel essencial na saúde e no desempenho de bovinos confinados. A adoção de tecnologias nutricionais adequadas fornece ferramentas fundamentais para que os pecuaristas enfrentem os desafios dos sistemas intensivos modernos, promovendo melhorias na produtividade”, finaliza o zootecnista, formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e mestre em produção e nutrição de ruminantes pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Fonte:
Notícias Agrícolas